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Anima Mundi

Foi no ANIMA MUNDI 1997 – primeira edição paulista – que Guilherme Marcondes decidiu seguir a carreira de animador depois de assistir ao primeiro filme de Sylvain Chomet, criador de Bicicletas de Belleville. Em 2010 ele retornou ao festival, dessa vez compartilhando sua experiência profissional com os colegas no Papo Animado. E como a relação é mesmo estreita, ele participa novamente em 2012. O cartaz dessa edição foi criado pelo paulista, que hoje trabalha e mora em Nova York.

Marcondes é famoso por sua versatilidade. Autor de filmes publicitários e autorais, ele usa as mais diversas técnicas – muitas vezes misturadas – em suas produções. Em 2005 foi até Londres dirigir a campanha de divulgação doEurope Music Awards, da MTV. Logo que voltou ao Brasil produziu um filme chamado Tyger, que arrebentou em festivais por todo o mundo.

Mesmo longe, ele concedeu uma breve entrevista para a equipe do ANIMA MUNDI. Os temas foram os mais diversos: início na profissão, processo criativo, carreira no exterior, expectativa para os próximos anos no mercado da animação etc.

A entrevista na íntegra está disponível abaixo. E quem quiser se aprofundar mais no trabalho do Guilherme pode entrar em seu site oficial.

Autorretrato de Guilherme Marcondes

Guilherme Marcondes se apresenta em autorretrato

Equipe ANIMA MUNDI: Como você entrou no mundo da animação?

Guilherme Marcondes: Foi quando eu ainda cursava faculdade de Arquitetura e fazia freelance como ilustrador nas horas vagas. Através de um amigo em comum conheci um dos sócios da Lobo, na época ainda uma empresa pequena. Mostrei meu portifólio de ilustração pra eles e eles toparam me contratar como estagiário. A parte mais legal é que eles sugeriram que o estágio fosse animar um dos meus próprios personagens que eles viram no portifólio e acharam legal. Fiquei uns três meses fazendo meu primeiro desenho animado, com o privilégio de ter a equipe da Lobo me orientando no processo.

 

AM: O que faz uma boa animação?

GM: No final das contas “Animação” é um nome tão genérico como “Cinema”, um balaio que mistura coisas muito diferentes que vão dos longas-metragens de grandes estúdios às experimentações de artistas individuais. Eu pessoalmente, independente do tipo de animação, prezo a originalidade. Eu admiro os artistas ou estúdios que tem coragem de apostar num estilo próprio.

 

AM: “Tyger” conquistou mais de 30 prêmios internacionais. Por que esse filme fez tanto sucesso?

GM: Acho que foi principalmente a combinação inusitada de uma técnica secular como o teatro de bonecos japonês com animação gerada por computador.

Eu também gosto de acreditar que o tema do filme é bastante evocativo. Espero que eu tenha conseguido criar uma imagem que traduza um pouco do sentimento de euforia e caos de viver numa grande cidade. Lógico que minha inspiração foi São Paulo mas pelo jeito a ideia se traduz para outros lugares do mundo.

Making of the Tyger

Guilherme e sua equipe trabalhando nas filmagens do super premiado Tyger

AM: Como é o seu processo criativo?

GM: Eu sou viciado em informação. Coleto muita coisa durante um certo período, ainda sem saber porque. Devoro fotos, imagens, música, filmes, livros, textos etc. Aos poucos um padrão vai surgindo e eu acabo percebendo que existe um tema escondido dentro das minhas pesquisas. Eu tento extrair essa ideia e trabalhar ela dentro de um roteiro ou qualquer outra estrutura. É um processo bem caótico… Não sei se eu recomendo!

 

AM: O que foi preciso para alcançar o sucesso atuando de forma independente? Por que você optou por esse modelo?

GM: Acho que é da minha personalidade preferir fazer as coisas do meu jeito. Isso me dá flexibilidade de mudar de ideia e de planos quando eu bem entender. Posso navegar entre diferentes trabalhos comerciais e trabalhos autorais.

De qualquer forma eu tenho consciência de que fazer parte de estruturas maiores como os grandes estúdios de animação permite que você participe de algo com alcance muito maior.

 

AM: Hoje você mora em Nova York, por que você optou em sair do Brasil?

GM: Em certo ponto me foi dada a oportunidade de trabalhar em um estúdio em Los Angeles e resolvi aceitar o desafio. Sempre tive vontade de morar fora por um tempo, como uma experiência passageira. No fim das contas eu já estou nos EUA há 6 anos, agora morando em NY. De qualquer forma eu venho sempre ao Brasil e meu próximo projeto de curta-metragem deve ter as partes filmadas feitas em São Paulo. Se tudo der certo esse filme vai ser uma coprodução do Brasil, EUA e França.

AM: Desde que você decidiu ser um animador, até hoje. Quais foram os maiores obstáculos?

GM: O maior obstáculo como diretor independente é você conseguir impor sua própria voz num mar de outras vozes tão (ou mais) talentosas que a sua. A produção do filme é apenas uma parte de um trabalho que envolve muita política para fazer os seus projetos acontecerem. Animadores não são seres políticos por natureza. Todos crescemos com a cara enfiada no papel, ou na tela. Esse aprendizado é o mais difícil.

 

AM: Em 2012, o Anima Mundi comemora 20 anos. Qual a importância desse festival para a animação brasileira?

GM: O Anima Mundi difundiu a animação para toda uma geração de brasileiros, inspirando novos animadores e criando o seu público ao mesmo tempo. Não há como exagerar a importância desse trabalho. Como eu já disse inúmeras vezes, eu não seria animador se não tivesse ido ao primeiro Anima Mundi em São Paulo. Foi lá que eu decidi o que eu queria fazer da minha vida.

 

AM: O que significou para você ser o escolhido para criar o cartaz da edição dessa edição do festival? No que você inspirou para criá-lo?

GM: Me sinto honrado por ter sido escolhido a ilustrar os 20 anos do festival que me levou a entrar nesse meio. Me lembro da primeira sessão que eu assisti no Anima Mundi. Passou La Vieille Dame et Les Pigeons (A Velha e os Pombos, 1998), de Sylvain Chomet. Me lembro de ficar literalmente boquiaberto com animação dos personagens, como as atuações eram expressivas, como os cenários eram lindos, como a história era bem estruturada etc etc. Se bobear foi ali mesmo que eu decidi que ia trabalhar com animação! A última coisa que poderia se passar na minha cabeça naquela hora é que um dia eu ia criar a imagem do festival que estava trazendo aquela jóia aos meus olhos.

Eu queria que a minha ilustração refletisse a influência do festival. Eu tentei criar a “cidade do Anima Mundi”. O festival hoje é tão importante e tão grande que quando acontece é como se uma cidade fantástica de mais de 100 mil habitantes existisse por uma semana!

Cartaz oficial do ANIMA MUNDI 2012, criado por Guilherme

Retrato da "Cidade Anima Mundi" criado por Guilherme no Cartaz do ANIMA MUNDI 2012

AM: Qual a sua expectativa para os próximos 20 anos da indústria de animação nacional? E no mundo?

GM: Animação deve continuar se expandindo para outras plataformas além do cinema e da televisão. Animação é parte essencial da indústria dos games que já é maior que a industria do cinema. Plataformas interativas, sejam portáteis como apps de celular ou em grande escala como instalações físicas que incluem animação são um mercado em acensão e muita inovação ainda está por vir. É possível que em breve a animação possa sair das telas e habitar o espaço ao nosso redor com tecnologias de realidade aumentada (inseri link explicativo) e vários tipos de holografia sendo desenvolvidos. Seja lá o que for, o futuro da animação parece estar intimamente ligado ao da tecnologia.

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