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Todos os anos, convidamos um animador para criar a identidade visual do nosso festival. Em 2015, o escolhido foi Cordell Barker, que já havia pisado no Anima Mundi, em 2010, para dar um Papo Animado. Fizemos uma entrevista bem legal com esse baita animador! Se você não o conhece, terá oportunidade de saber, nas próximas linhas, quem é o Cordell. E se já o conhece, entenderá melhor sobre a arte do cara.

Veja só:

O que te motivou a trabalhar com animação?
Quem não gosta de animação quando criança? A diferença é que minha apreciação continuou quando me tornei adulto. Eu era uma criança bem quieta e autossuficiente e isso me permitiu olhar mais para dentro, ter concentração. Eu não tinha uma personalidade extrovertida para trabalhar com filmes ao vivo, então animação era perfeito para mim. Era algo que eu poderia fazer sozinho, num quarto, por anos e anos. Quem mais, sem ser animador, poderia suportar essa vida?

Como você descreveria seu estilo de animação?

Eu diria que meu estilo de animação é visualmente ingênuo, mas com um “timing” conciso. Eu acho que um visual simples e ingênuo pode realmente ressaltar um tipo de humor que um estilo de animação mais polido e exuberante poderia esconder com seu visual mais trabalhado e sedutor.

Onde você procura inspiração? Você acredita que o humor é um importante elemento para animação?
 
Eu procuro por inspiração no comportamento humano. Nunca falta absurdo e nonsense se você tem a perspectiva certa e vê os seres humanos pelo que eles são – simplesmente eternas crianças ficando grandes e mais enrugadas.

Com tantos anos de animação, o que mudou nas suas técnicas de animar?
Do que você gosta e do que não gosta nessas mudanças?

O meu primeiro filme, “The Cat Came Back”, foi criado nos últimos anos da pintura com tinta acrílica sobre acetatos que eram filmados sob uma mesa de filmagem com uma câmera 35mm. Todos os meus filmes posteriores foram animados no papel, mas usando o computador para pencil-tests e para composição das imagens. Foi uma mudança incrível para a habilidade de manipular o “timing” da animação, o que era por si só uma nova flexibilidade que era fantástica. Antigamente, eu teria que anotar tudo muito rapidamente antes que o meu projetor 16mm mastigasse meu filme com o pencil-test da minha animação. Com o computador, eu podia brincar sem parar com o timing do filme. Ironicamente, “The Cat Came Back” teve o melhor timing de todos os meus filmes. Ainda assim, o computador acabou sendo muito mais confortável para trabalhar. Assim como a possibilidade de colorir a animação em segundos, em comparação com o processo tedioso de pintura em acetato. O problema com toda essa eficiência do computador é que não sobra mais físicamente nenhuma obra de arte para emoldurar no final da produção. Eu sinto falta dos dias em que eu poderia segurar as artes finais em minhas mãos e distribuí-las para fãs que as apreciavam.

Você foi premiado tantas vezes e nomeado duas vezes ao Oscar. Qual experiência você julga a mais importante da sua carreira?

Eu acho que a nomeação ao Oscar pelo The Cat Came Back foi o maior incentivo que me tornou, de fato, um verdadeiro cineasta. Isso engatilhou uma enxurrada de comerciais de TV e me deu confiança e convicção no meu próprio trabalho para continuar com a visão que eu queria alcançar em cada trabalho e filme seguinte.

Você considera usar outras técnicas de animação, que não a animação 2D?

Na verdade, o meu último filme usou principalmente bonecos de stop-motion em vários estilos e materiais, bem como dois estilos de animação 2D diferentes. Eu queria tentar algo novo e trabalhar com uma equipe. Uma grande parte do trabalho com a animação de bonecos foi animada por uma equipe profissional de stop-motion, e eu mesmo fiz as outras partes em um estilo e técnica mais ingênuo e diferente. Foi um processo fascinante, onde eu tive que criar o meu filme usando animatics com animação de recortes, como um guia de timing para que minha equipe stop-motion pudesse ver exatamente o que eu queria. Foi extremamente importante para mim que cada tomada tivesse o fluxo de timing correto, do modo que o filme todo tivesse uma sensação de coerência. Eu acho que tudo saiu muito bem e foi uma enorme experiência de aprendizado para mim.

Por favor, conte-nos um pouco sobre a ilustração e a vinheta criadas para o Anima Mundi 2015. O que você acha que têm em comum com os seus filmes? Quais as coisas que você tinha visto no Brasil, quando veio para o Anima Mundi, que te inspiraram para ter esta ideia?

A ilustração e a vinheta que eu criei para o Anima Mundi são de um animador caminhando ao longo da praia de Copacabana, sob um sol gigante. Ele e todos os outros (um pássaro, uma árvore, uma menina correndo na praia), estão lançando uma sombra estranha que ganha vida e se torna mais fantástica do que deveria ser normalmente. As sombras se tornam mais interessantes e animadas do que no mundo real. Imaginei o sol para ser como se fosse um projetor de filmes e as pessoas e árvores na praia como o filme que bloqueia a luz projetada, e a superfície da praia é como a tela de cinema onde as sombras do filme farão a tela se tornar viva.

Eu acho que a vinheta e cartaz compartilham uma sensibilidade comum com o resto da minha obra, em que eu tento encontrar um toque humorístico sob a realidade do que está ao nosso redor. Neste caso, a ideia de que todos nós estamos aqui no planeta para lançar uma grande sombra – para criar um grande show para outra pessoa assistir. Foi ao ver a extensão gigantesca das praias de Copacabana e Ipanema que me inspirei. Todo mundo estava por ali passando indo resolver seu dia na praia sem perceber que suas sombras pareciam todas servir a algum tipo de propósito coletivo, grandioso e cheio de arte.

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A identidade visual do Anima Mundi 2015 também está estampada em todas as nossas redes sociais! Entre em alguma delas e confira! 

Ah! E o Cordell Barker fez questão de desejar um bom festival a todos. 🙂

 

Cordell Barker from Anima Mundi on Vimeo.