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A pintura normalmente é feita em telas. Mas não é preciso se restringir a uma base de algodão para utilizar suas tintas. Por que não pintar sobre vidros? Pode soar estranho, mas essa técnica existe desde a China antiga, passando pelos Impérios Bizantino e Romano. Na Europa, tornou-se popular nos vitrais religiosos das igrejas católicas. Agora, esta técnica com tanta história ganha vida pelas lentes de animadores como Massimo Ottoni, vencedor do ANIMA MUNDI WEB & CEL 2011, que este ano mudou o nome para ANIMA MULTI.

Ganhador na categoria Prêmio do Júri Profissional, Massimo considera que a característica principal de suas animações é o movimento. E para isso, a técnica de pintura em vidro é perfeita. O vidro não absorve a tinta como a tela e, assim, o líquido se espalha e parece ganhar vida. Como Massimo diz, ganha movimento. O animador italiano comenta que a forma e cor, normalmente quesitos essenciais para os pintores em geral, são secundários em seus filmes. Talvez porque quando a tinta entra em contato com o vidro, se torna indomável: as formas se distorcem, as cores se misturam.

Alexander, o grande

Um animador que entende como ninguém destas tintas indomáveis é o russo Alexander Petrov. O mestre da pintura em vidro é diretor de curtas-metragens como A Vaca (1989), Sonho de um Homem Ridículo (1992) e A Sereia (1997). Mas seu filme mais conhecido, não por acaso o único que foi produzido fora de sua terra natal, no Canadá, é O Velho e o Mar (1999). A adaptação do romance de Ernest Hemingway ganhou o Oscar de melhor curta-metragem de animação e o Grand Prix no Festival Internacional de Animação de Annecy, um dos mais conceituados do mundo. Claro que ele não ficou de fora do ANIMA MUNDI. Em 2000 Alexander foi aplaudido de pé na Praça Animada depois da exibição do, na época recém-lançado, O Velho e o Mar, e de outros marcos de sua carreira.

Neste filme Petrov utilizou seus próprios dedos ao invés de pincéis para dar maior movimento às imagens. Ele também sobrepôs camadas de vidros com pinturas diferentes para acrescentar profundidade a cada frame. Alexander pintou 29 mil quadros (literalmente) durante dois anos para finalizar o filme, que tem duração de apenas 20 minutos. Haja tinta!

Água de beber e de animar

Se quiser economizar na tinta você pode utilizar outro líquido (sem desperdiçar!) disponível em casa: a água. O corpo humano é composto de 70% de água, mas você sabia que é possível realizar uma animação feita 100% dessa matéria-prima? Ano passado Rodrigo Eba participou do Concurso Nacional de Animação para Internet do ANIMA MUNDI e do CCBB, que tinha como tema “Água em Movimento”. Um dos participantes levou esse tema a sério. E levou prêmio.

Rodrigo Eba, ao saber do assunto que seria tratado, em vez de pensar o óbvio – fazer uma animação que fale sobre água – resolveu utilizar o próprio tema como matéria-prima. Cachoeira é um curta em stop motion feito com gotas d’água. Utilizando um conta gotas, Rodrigo animou água, e fez o curta de um minuto em duas semanas.

A principal dificuldade foi conseguir que a água se comportasse como ele queria. Aos poucos Rodrigo começou a entender o líquido e notou que era impossível fazer linhas e construir um “desenho” tradicional. Assim, o animador resolveu utilizar gotas d’água para compor os cenários e personagens. O único líquido que permitiu formas lineares foi o café, que na animação representa a poluição.

Você não precisa passar duas semanas contando gotas, nem dois anos pintando sobre vidros mas pode pegar as sobras de um porta-retratos velho e começar a filmar suas experimentações. Com tinta, água, o que você quiser inventar. Uma ideia na cabeça e um conta-gotas na mão. Por que não?