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Dr. Clement, um labrador, conduz uma sessão de terapia coletiva de discussão sobre medos particulares e internos. Seus pacientes são uma lesma, um porco, uma louva-deus, uma gata, um passarinho e um gorila. Esse é o enredo de “Animal behaviour”, o curta canadense que concorre ao Oscar deste ano. O filme já passou por ao menos 20 festivais internacionais e venceu sete premiações desde que foi lançado no ano passado — uma delas foi a do próprio Anima Mundi, em que ganhou o Grande Prêmio da 26ª edição do festival.

Quem assina o roteiro e a direção da animação é a dupla de animadores Alison Snowden e David Fine. Além de serem casados, a parceria dos dois já lhe renderam uma estatueta da Academia pelo curta “Bob’s birthday”, em 1995. Este também foi o último curta-metragem de animação até “Animal behaviour” — um intervalo de tempo de quase três décadas. Fine é um dos convidados para o Papo Animado da 27ª edição do Festival Anima Mundi, que acontece em julho deste ano. Em uma conversa com o Anima Mundi, Fine falou um pouco sobre o processo de criação e produção do filme em 2D.

Como foi o processo criativo de “Animal behaviour”? Como vocês chegaram na ideia de fazer o personagens como animais?

Estávamos interessados em como as pessoas tentam se adequar ao mundo; o dilema entre mudar ou não para se encaixar, ou se devemos nos aceitar como somos. Então, pensamos que, se fizéssemos os personagens como animais, mas com traços que são muito humanos, seria uma forma divertida para olhar essa questão. Nós aceitamos essas características nos animais, mas e se fosse o contrário? Outro ponto é que queríamos que o filme se passasse em um único ambiente. Porém, isso nos trouxe desafios de como manter a história interessante. No começo, a gente achou que fazendo com que tudo acontecesse em um local só seria mais fácil. Mas foi o oposto, não sabíamos onde cortar o filme.

Quanto tempo vocês levaram para fazer o curta?

Essa é uma pergunta meio difícil de responder. Levamos cerca de 2 anos e meio para fazer o filme. Mas, todo desenvolvimento da ideia demorou mais. Foi muito tempo!

O filme participou de diversos festivais pelo mundo e foi premiado em alguns. Ele também é um dos indicados ao Oscar de Melhor Curta de Animação. Em algum momento vocês esperaram esse tipo de reação?

Não tínhamos a expectativa para que nada disso acontecesse, mas esperávamos que as pessoas gostassem do filme. E nos deixou bem feliz o modo como a animação foi tão bem recebida.

Essa não é a primeira vez que concorrem ao Oscar e vocês já até ganharam uma estatueta. Qual a expectativa para este ano?

Como falei, não planejávamos nada disso. Até mesmo quando o “Animal behaviour” foi para a lista de pré-selecionados, pensamos que não seríamos indicados e tudo bem. Mas fomos e ficamos extremamente honrados.

Essa é o primeiro curta que vocês fizeram desde “Bob’s birthday”. Por que demorou tanto tempo?

Começamos a fazer séries de TV e a desenvolver outros projetos. Achamos que tínhamos seguido em frente, que não faríamos mais curtas. Só que começamos a sentir falta de colocar a caneta no papel — ou no tablet. Então, decidimos tentar fazer um filme usando um software digital. Até porque, da última vez, nossas ferramentas eram tinta e tela. Ficamos animados com essa ideia. O nosso produtor, Michael Fukushima, gostou e nos convidou para desenvolvê-la com a NFB (a agência de cinema do governo canadense).

Vocês sentiram alguma diferença entre fazer uma animação agora e fazer uma no início dos anos 90?

Como eu digo, a tecnologia mudou muito — e nós adoramos. Para fazer o “Animal behaviour”, usamos o TVPaint (um pacote de software de pintura 2D e animação digital). Demorou um pouco para a gente se acostumar, mas, no final, gostamos muito de usá-lo. O engraçado é que não foi, de maneira alguma, mais rápido fazer uma animação digital do que manualmente.

E qual a diferença entre fazer uma série para a TV e um curta-metragem?

Nós amamos o trabalho colaborativo que existe na produção de uma série; e é realmente muito bom criar tanta coisa que será vista por um público mais amplo. Trabalhar com outras pessoas talentosas é algo que agrega muito, é ótimo. Na produção de um curta, o processo é muito mais direto, é “mão na massa e vamos animar”. Ainda sim, também trabalhamos com pessoas talentosas e que trazem bastante para o filme. Mas é realmente uma sensibilidade diferente, é um outro ritmo.

Há algum plano para uma sequência de “Animal behaviour”?

Não sabemos ainda, não temos nenhum plano por hora. Mas, com certeza, há interesse para isso.