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Dentre as lindas produções que passaram pelo Anima Mundi 2014, está Viagem na Chuva, do brasileiro Wesley Rodrigues. O filme trouxe uma atmosfera poética para o nosso festival, usando a chuva como metáfora para a passagem do tempo e a trajetória da vida. Bacana, não é mesmo? Se você curtiu esse super curta, vai amar o que temos para dizer: fizemos uma entrevista com o animador e vamos trazer um pouco dela aqui para você!

Wesley Rodrigues

Wesley Rodrigues diz que, com a animação, é possível falar diretamente ao sentimento do espectador, “deixando transparecer a alma humana através de imagens”

Em uma apresentação do projeto, no seu blog, Wesley Rodrigues traz uma reflexão, que deve nos acompanhar durante toda a história: “que sensação nos causa a simples contemplação da chuva caindo? Chuva que lava o espírito e que nos traz de longe os dias que vivemos e que hoje apenas podemos reviver em nossas lembranças”.

Pensando em muitas ideias e metáforas ligadas à chuva, ele criou a história de um palhaço sonhador que decide reviver a magia de sua infância e de um filho, também palhaço, sempre com a esperança de reencontrar seu pai. Seus caminhos se entrelaçam e são guiados pela angústia da espera e pela inevitável passagem do tempo.

Viagem na Chuva, Wesley Rodrigues

O animador disse que a história da busca do pai tem a ver com suas experiências de vida, mas que, na edição final, acabou mudando um pouco a ideia inicial

O curta ‘Viagem na Chuva’ tem fundamentalmente a intenção de transmitir ao público as alegrias e tristezas as quais estamos sujeitos. Tal como a chuva, nossos sentimentos são trazidos ou levados por novos ventos, transformando nossa vida em uma metáfora de passagem do tempo. Nosso objetivo é fazer um filme humano, construindo um poema visual que apresente ao público sensibilidade e capacidade argumental, e que de uma maneira mágica traga encantamento para a vida das pessoas”.

Na entrevista que fizemos com Wesley Rodrigues, ele disse que “é um filme que trata de lembrança. De você poder de repente usar o momento ali e não deixar as coisas passarem. É basicamente isso, fala dessa questão de como você é sincero no tempo, nessa trajetória de tempo, nessa coisa de lembrança, de recordação”.

Wesley Rodrigues

Wesley disse que não teve um estopim de criação, mas sim que as ideias foram surgindo a medida que o filme ia se desenvolvendo

O filme começou a ser pensado durante a faculdade de Wesley, como seu trabalho de conclusão de curso. Na época, se chamaria As Cores da Chuva, segundo ele “porque queria trabalhar com essa questão da arte, da cor”. Ele pretendia fazer uma narrativa com o máximo de imagens e cores, pensando no poderiam transmitir. Esse é, para o animador, um aspecto bem pessoal do curta; ele diz que, a todo o momento, tentou “tratar toda a questão do filme como uma coisa bem subjetiva”.

Wesley Rodrigues

Antes de animar, Wesley trabalhava com histórias em quadrinhos. Segundo ele, essa experiência ajuda bastante na construção de narrativas

A ideia do circo é igualmente pessoal. Ele tentou colocar nas imagens o significado do circo para ele e “o que simboliza a figura do palhaço ali no picadeiro”. Mas, primeiro, pensou simplesmente como poderia fazer um filme bonito que falasse de coisas que gostava.

Na época, o artista estava lendo O Grande Livro dos Símbolos, de Jack Tresidder, e se interessou especialmente pelo o que o autor falava do significado simbólico do palhaço: “é uma figura invertida do rei soberano e é tratado como um bode expiatório das falhas humanas”, Wesley nos disse. Juntando então essas figuras do circo e do palhaço com muitos outros traços pessoais, como o peixe gigante, que surgiu em um sonho, esse incrível animador criou sua história. Foi uma verdadeira mistura de várias ideias que foram caindo e sendo apropriadas por Wesley de um jeito próprio.

Wesley Rodrigues

Além de ser animador, Wesley também trabalha com ilustrações

Mas não pense que foi rápido. Entre o início da ideia até a concretização do filme, passaram-se anos. Wesley, inclusive, teve muitos outros projetos nesse meio tempo, como Faroeste: um autêntico western. Está lembrado que essa produção ganhou Melhor Curta Brasileiro de 2013, no nosso festival? Genial! E não foi a primeira vez que ele passou por aqui: sua estréia com a gente foi com a animação Marionetes. Já é de casa!

Wesley Rodrigues

Wesley dissse que, em Viagem na Chuva, foi muito influenciado pelo animador japonês Hayao Miyazaki

A sua ideia de uma produção mais livre, que não se prende ao roteiro e ao storyboard, combinou definitivamente com o longo processo. Ele foi moldando o filme à medida que as ideias iam surgindo. Nas palavras dele, “gosto de ver os caminhos que vão aparecendo enquanto eu to fazendo. Eu acho que é mais divertido até”. É como se ele mantivesse a história viva e pudesse direcioná-la de acordo com as experiências que vão se tendo durante a produção.

Você sempre pode mudar no decorrer. Mas eu digo assim, se você já tá com o negócio bem fechado ali, parece que dá uma bloqueada na produtividade. Então eu gosto de deixar o negócio bem aberto e eu vou descobrindo o filme enquanto eu to fazendo, sabe”.

Wesley Rodrigues

Por mais que pense em fazer algumas coisas experimentais, Wesley diz que gosta de fazer 2D. Ele sente que é a essência da animação

Desde de a ideia inical até a concepção definitiva da animação, Wesley teve tempo a beça para amadurecer em muitos sentidos. Ele sentiu então vontade de inserir coisas que nem tinha imaginado antes, o que o levou a reformular praticamente todo o roteiro e todo o storyboard! Afinal, ele não era a mesma pessoa quando começou com a ideia e no último ponto da produção. Esse foi, na verdade, um dos maiores desafios do projeto, junto com o fato do animador ter feito o filme todo quase sozinho! Impressionante, não é?

Inclusive, essa questão de liberdade e abertura tem tudo a ver com o próprio objetivo do curta: “a ideia do filme é deixar uma coisa aberta para que a pessoa possa completar a história com alguma coisa que ela tem”.

Wesley Rodrigues

O animador disse que vai lançar um artigo que pode explicar um pouco o processo do filme, falando de onde a ideia veio

Se você ficou encantado com a produção de Viagem na Chuva, está prestes a ficar mais animado ainda: foi lançado um artbook do filme! Dá pra acreditar? Para quem ficou querendo mais um gostinho da linda produção, ele esta à venda na página do facebook de Viagem na Chuva!