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Paulo Henrique Machado tem 45 anos e vive há 40 no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Vítima de paralisia infantil, seu sistema respiratório também foi afetado e por isso ele depende de um aparelho de respiração artificial para continuar vivo.

Mesmo com essas adversidades, grande fã de cinema, Paulo criou a série animada “As Aventuras de Léca e Seus Amigos”, que mostra a infância de sete crianças portadoras de necessidades especiais e transmite mensagens de inclusão e valorização das diferenças. A menina Léca, protagonista da animação, é sua melhor amiga na vida real e vive na cama ao lado.

Paulo Henrique Machado

Paulo financiou sua animação utilizando a plataforma de crowdfunding Catarse (Joel Silva/Folhapress)

No último dia 27, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma matéria sobre a história de Paulo. Nessa data ele ainda tentava financiar seu filme através da plataforma de crowdfunding Catarse, mas tinha conseguido apenas R$ 8.800 dos R$ 120 mil necessários para a concluir produção. Apenas dois dias após a publicação, a meta foi alcançada para a alegria de todos no Hospital.

Guera nas Estrelas enfeita o quarto de Paulo Machado

Paulo encontrou na decoração uma forma de dar sua cara ao quarto do hospital (Joel Silva/Folhapress)

Todo esse dinheiro será usado pra bancar a equipe e a estrutura que dará apoio a Paulo em todo processo de produção 3D. Dublagem de alta qualidade, pós-produção, logística de produção, distribuição… A lista vai longe!

Passatempo

Paulo se diverte assistindo a filmes e séries, sua coleção de DVDs é extensa (Joel Silva/Folhapress)

Confira abaixo um pouco da história de Paulo em depoimento ao jornal paulista:

“Minha mãe morreu dois dias depois que eu nasci. Com um ano e meio, tive paralisia infantil. Vim para o Hospital das Clínicas sem movimento nas pernas e, com o tempo, a paralisia atingiu também meu sistema respiratório.

Desde então, dependo do aparelho de respiração artificial para continuar vivo.

Aqui no hospital, aprendi a ler e a escrever. Conclui o ensino médio e fiz vários outros cursos de informática e na área de softwares.

Lembro-me de quando era pivete, podia andar de cadeira de rodas pelo hospital e visitar meus amigos em outros quartos. Líamos historinhas infantis uns para os outros.

Minha capacidade de respiração foi piorando e eu já não podia mais sair da cama. Eu e mais seis amigos, todos com paralisia infantil, fomos transferidos para um quarto [só ele e Eliana Zagui sobreviveram]. Era uma gangue.

Eu e a Tânia éramos os líderes e discutíamos muito. O principal motivo era a televisão. Havia dois aparelhos e a gente ficava competindo pelo volume, pelos programas. Os meninos queriam futebol, as meninas, novela.

Apesar de estarmos presos às camas, a gente inventava brincadeiras que estimulavam a imaginação.

Eu, o Pedro e o Anderson tínhamos movimentação nos braços [as meninas não tinham] e fazíamos pipas para brincar e para vender. O Anderson conseguia soltar da janela do quarto.

Era engraçado porque não ventava o suficiente. Quando a pipa estava quase subindo, caía. Era muita pipa perdida. Enganchavam nas árvores, ou eram pegas pelos meninos que já ficavam perto do hospital à espera delas. Sempre machucava a mão afiando o bambu com canivete.

Aqui no hospital tive muita oportunidade de fazer coisas que qualquer outra criança podia fazer lá fora, como armar arapucas para pegar passarinho no fundo do terraço. A diferença é aqui a gente só pegava pomba.

Um dia encontrei um gafanhoto e o amarrei com barbante. Fazia de conta que eu era o Pinóquio e ele o grilo falante. Também ganhava “presentes” dos funcionários.

Uma atendente me deu uns tatus-bolas. Outro médico que trabalhava aqui, o doutor Giovani, que eu chamava de pai [Paulo tem pai, mas que raramente o visita], me trouxe duas pererecas, aquelas que dão em rio.

Eu tentava pegar, e elas pulavam. Foi aquela histeria generalizada na UTI.

Em 1992, pensei o que poderia ter para produzir, criar alguma coisa. Foi quando escrevi uma carta para uma empresa pedindo a doação de um computador. Comecei a estudar informática sozinho. Era um modelo MSX, bem limitado. Em 1994, ganhei meu primeiro PC.

No início, era aterrorizador, eu vivia quebrando o computador. A coisa melhorou depois que os hospital deixou os técnicos de informática à disposição para me ajudar. Hoje eu monto computadores. Tenho meu segundo PC montado.

A partir de 2004, lutei, também sozinho, para me profissionalizar na área de 3D. Em 2011, achei que eu precisava de um curso para trabalhar com computação gráfica. Fui atrás do Senac, e o professor veio até o hospital.

Desde então, comecei a alimentar a esperança de um dia me envolver profissionalmente com a sétima arte. Adoro cinema, meu ídolo é Charles Chaplin (1889-1977).

Foi aí que pensei numa animação com deficientes físicos. Mas não sabia se isso despertaria o interesse das pessoas. Foi então vendo as animações com personagens deficientes feitas por um estúdio britânico de que eu gosto [Aardman Animations, especializado em animações stop-motion], que fez a “Fuga das Galinhas”, que pensei estar no caminho certo.

Pensei que as minhas aventuras e dos meus amigos aqui dentro do hospital já dariam um bom roteiro para uma série animada.

Ao colocar as histórias das nossas vidas, minha ideia é que as crianças possam assistir e aprender que o deficiente, numa cadeira de rodas, não é tão diferente assim. As histórias também contam sobre passeios que fiz ao Playcenter, ao circo, por exemplo.

Já roteirizei cinco histórias. Meu objetivo é finalizar a primeira temporada com 13 roteiros. Cada episódio tem 12 minutos. Se o vento continuar soprando, outras temporadas virão. E se as pessoas gostarem, nada impede que um dia vire um longa metragem.

A ideia com o Catarse é que as pessoas compartilhem ideias sobre o projeto e deem uma força. Uma árvore para crescer precisa ser regada. A árvore em questão não é de uma só pessoa. A ideia foi minha, mas o projeto da animação pertence a todos.”

Curtiu? O projeto já teve sucesso no financiamento, mas vale a pena ficar de olho, vem coisa boa por aí!