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Além de professora da CalArts, Maureen Furniss é uma das ainda raras autoridades no mundo em teoria e estudo sobre da linguagem da animação. Seus livros são referências obrigatórias para quem quer compreender a evolução de nossa arte, em contextos amplos que abrangem desde referências estéticas variadas (Art in Motion: Animation Aesthetics) até a investigação sobre a trajetória de um animador mainstream (Chuck Jones: Conversations).


Complementando sua presença no Anima Forum, Maureen realiza uma palestra exclusiva para o Anima Mundi (sábado 24 de julho às 15h no CCBB – auditório do 4º andar) sobre o novo livro que está escrevendo, em que aborda um dos mais fascinantes aspectos da aventura da animação: o cinema feito diretamente na película cinematográfica.


O Filme Direto é uma arte que se encontra na intercessão entre a pintura, a gravura, a colagem, o filme de arquivo e várias outras formas de arte. São filmes feitos sem o uso de uma câmera, portanto com mínima intermediação entre o autor e sua obra, através de imagens pintadas, montadas, arranhadas, coladas, (etc) sobre superfícies muito, muito pequenas: um fotograma de película cinematográfica.



Two Sisters (1991), de Caroline Leaf, exemplo de um curta (premiadíssimo!)
que utiliza a técnica de filme direto sobre película 70mm.


Filmes diretos foram produzidos desde os primeiros anos do cinema. Em 1912, o irmãos italianos Arnaldo Ginna e Bruno Corra criaram ao todo entre seis e nove filmes, cada um com duração de 10 a 12 minutos, todos eles perdidos pelo tempo. O neozelandês Len Lye e o escocês (naturalizado canadense) Norman McLaren são geralmente lembrados como os primeiros praticantes de verdade da técnica, começando a produzir no início dos anos 30. Desde então, filmes diretos são feitos todos os tipos de autores, desde crianças e iniciantes até artistas consagrados.


Alguns desses artistas, como Peter Tscherkassky, expõem seus filmes em salas escuras, um fotograma de cada vez, usando um minúsculo feixe de luz. Outra variação é desenhar ou fotografar som, como faz Richard Reeves, ao invés de gravá-lo de uma forma mais convencional (Reeves deu um workshop no Anima Mundi em 2006). Alguns praticantes “trabalham o filme à mão”, como é o caso de Helen Hill, que dispensa os serviços de um laboratório profissional. Eles desenvolvem os filmes sozinhos, usando baldes e todos os tipos de soluções, incorporando a sujeira e os riscos decorrentes como elementos da arte visual. Todos esses artistas, de ímpeto bem pouco
conservador, podem ser classificados como verdadeiros manipuladores da película, uns desenvolvendo sons, outros imagens.


O termo “filme direto” é uma redução para “trabalhar diretamente no filme”, o que sugere que o trabalho acontece em cima (e embaixo) de um rolo de filme. No entanto, há uma conotação secundária que é igualmente importante: a de uma relação muito direta entre o artista e a obra, onde a força de mediação da tecnologia é reduzida ao mínimo. Como modo de investigação, cinema direto é tanto uma filosofia como a manifestação de uma abordagem criativa de amplo controle sobre o processo de produção e a favor do acesso a domínios “não autorizados”. Neste contexto, o conceito de integridade é estendido para além do material do filme. Põe em cheque, por exemplo, o formato digital, questionando o trabalho extremamente técnico e detalhado de algumas produções em computação gráfica.


Exibindo alguns trabalhos selecionados durante a palestra, Maureen irá demonstrar como artistas individuais trabalharam diretamente na película, explorando questões criativas, espirituais e intelectuais que norteiam a revolução do filme direto, tanto na forma como nas abordagens temáticas.


Maureen Furniss, PhD, é editora do Animation Journal e autora dos livros Art in Motion: Animation Aesthetics e The Animation Bible. Integra o corpo docente de animação do California Institute of the Arts (CalArts), onde leciona história da animação, técnicas de pesquisa e estética do cinema direto na película. Maureen foi presidente da Society for Animation Studies, onde é atualmente Presidente do Conselho. Palestrante e escritora experiente, ela fez a curadoria de exibições no mundo inteiro e integrou o júri de diversos festivais e comissões de seleção. É também Doutora em Crítica pela University of Southern California School of Cinema-Television. Vive em Santa Clarita, Califórnia.