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Para Wesley Rodrigues tudo teve início no Café 19, um pequeno estúdio fundado por jovens que sonhavam em fazer animação no meio do cerrado brasileiro. O aprendizado e a convivência diária com a prática da animação foram o ponto decisivo para que Wesley decidisse que era isso que queria fazer. O curta Marionetes, que participou da Mostra infantil no Anima Mundi de 2006, foi o trabalho que abriu caminho para vários outros.

Natural de Goiânia, Wesley formou-se em Design gráfico pela Universidade Federal de Goiás. Ilustrou vários livros e publicou as HQs YUKA: O pescador de ilusões e Gonzaga: o menino cantador. Foi diretor de animação no curta “O Ogro”. Em 2013 dirigiu a animação “Faroeste – Um Autêntico Western”, curta vencedor de vários prêmios importantes, como o de Melhor Animação Brasileira no Anima Mundi (júri popular), Melhor Animação e Melhor Curta pelo público no Festival de Brasília, e Melhor Animação no Animage. Em 2014, lançou o curta “Viagem na Chuva”, e em 2017, “O Violeiro Fantasma”. Atualmente desenvolve projetos de HQs e animação no Armoria Studio. Em seu Papo Animado, ele contou algumas histórias do início da carreira, falou sobre seu processo criativo e como ele e seus amigos fizeram para superar as dificuldades num estúdio improvisado e sem nenhuma estrutura, até finalmente produzir animações que tiveram destaque no circuito de festivais.

Como costuma ser o seu processo com a animação?

Minhas melhores ideias aparecem quando estou desenhando. Quando eu imagino algo, tento não ficar só com a ideia abstrata dentro da cabeça, vou logo para o desenho porque o primeiro esboço é um medidor. Normalmente, mesmo que eu me esforce muito, o primeiro desenho sempre fica mais distante daquilo que eu havia imaginado, mas ao vê-lo ali “materializado” posso seguir adiante e tentar chegar mais próximo da imagem que está na minha mente. E quando descubro o caminho, vou fazendo uma sequência de desenhos até conseguir ouvir e ver a história que estou contando.

E a sua formação em Goiás? Quais influências você teve de outros artistas?

Me formei em Artes Visuais na UFG. Eu e alguns amigos da faculdade de Design Gráfico sempre tivemos interesse pelo mundo da animação. Foi aí que decidimos juntar um grupo para montar um estúdio e produzimos o Marionetes, nosso primeiro curta. Nesta época ninguém do grupo sabia animar ou conhecia as etapas da produção de uma animação. A gente foi aprendendo junto. Num dia alguém chegava com um tutorial de composição de cena, no outro, alguém trazia tinta a óleo para pintar os cenários e todos participavam do processo dessa forma. Às vezes tirávamos o dia para ficar vendo filmes como A Viagem de Chihiro, do Ghibli, ou os filmes clássicos da Disney e discutíamos como a gente poderia chegar naquele nível de qualidade. Foi um aprendizado coletivo e cada um contribuiu de algum jeito. A energia e vontade que colocávamos nesse aprendizado inicial me faz pensar que essa foi a melhor formação para
animação que eu tive.

Quais as semelhanças e diferenças que você vê entre as linguagens da animação e a dos quadrinhos?

Acho que o aspecto que une o quadrinho e a animação é o tempo, mas isso funciona em dimensões diferentes. Digo dimensões, porque a percepção do tempo na animação e nos quadrinhos são bem distintas. Na animação a sucessão dos frames passa por um aparato mecânico que projeta uma sequência de imagens previamente pensada na tela. O tempo na animação é como se fosse um pouco mais condicionado, pois seria impossível para alguém que vê um filme na tela do cinema assistir o filme de trás para frente, a ilusão da sucessão da imagem segue sempre adiante. É o diretor/montador que escolhe a ordem na qual as imagens serão apresentadas para o público. Já nos quadrinhos, o tempo é mais maleável, pois é o leitor que dá o tempo da leitura, da virada da página. E se ele quiser ler de trás pra frente, ou mesmo virar o quadrinho de cabeça para baixo, ele consegue. É o leitor quem escolhe o tempo – se vai ficar dez
minutos ou duas horas olhando os detalhes de cada página. Numa história em quadrinhos, o leitor interfere na maneira em que a história é contada, mas as páginas seguem princípios de diagramação e composição para fazer a ação fluir e deixar a narrativa criar vida. A verdade é que fazer animação influencia diretamente minha maneira de fazer quadrinhos, e pelo fato de fazer quadrinhos, eu consigo ter uma melhor noção de como entender o tempo na animação.