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Nada melhor para conhecer novidades e novas técnicas do que conversando com quem está no mercado. Por isso, convidamos pra essa “mesa de bar” o animador Fabio Yamaji. Ele é animador, diretor de filmes, montador e fotógrafo. Realizou mais de 200 trabalhos entre curtas, comerciais, vinhetas, séries e clipes. Ganhou três vezes o Anima Mundi e competiu três vezes no Festival de Annecy.

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O Fabio contou um pouco da sua trajetória e deu dicas valiosas, tanto para animadores experientes quanto para aqueles que querem começar nesse mercado. Confira abaixo:

– Você contou no nosso Instagram um caso bem legal de como começou sua história com nosso Festival. Qual foi a importância do Anima Mundi na sua formação como animador?

O Anima Mundi foi fundamental na minha formação. Participei de todos os workshops (desde 1999, inclusive nos Anima Mundi BH) e masterclasses (desde 2010) que o festival ofereceu. Considero estas oportunidades o meu doutorado em Animação, pois além da variedade de “disciplinas” a que fui exposto – de técnicas experimentais a trilha sonora, roteiro, design e acting – foram ministradas por profissionais do mundo todo cujos trabalhos eu já conhecia e admirava. Estes contatos tem valor inestimável e sempre procurei absorver o máximo de informação, pra aplicar nos meus trabalhos. Também faço questão de assistir a todas as sessões da competição, panoramas, sessões especiais e Galeria (a minha preferida), pois são nelas que vejo coisas novas e me inspiro. E claro, os Papos Animados. Aliás, foi num Papo Animado de 1998 que conheci uma produtora que trabalhava com as técnicas que eu queria usar, a Trattoria di Frame. Fui atrás e no ano seguinte comecei a trabalhar lá como assistente, tornando-me animador seis meses depois. Fiquei na Trattoria até seu fechamento em 2007, tendo nestes anos animado de tudo em stop motion, além de 2D e Computação Gráfica. Dos trabalhos que realizei lá, 10 competiram no Anima Mundi e três em Annecy.

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– O que te levou a se especializar em Stop Motion?

Em 1995 estudei Desenho Animado estilo Disney na HGN, e logo percebi que não desenhava o suficiente pra animar. Isso foi durante a faculdade de Programação Visual. Testei o stop motion pela primeira vez na Digital Group, produtora do Gil Caserta, onde estagiei pintando o videogibi da Turma da Mônica e o curta “ESPANTALHO”, do Alê Abreu. Gostei tanto que passei a usar a técnica na faculdade. Fiz um curta com colegas chamado “STAR TRASH” – usando action figures – e meu trabalho de TCC foi sobre Stop Motion, que gerou outro curta, “CINEMASCOPE”. Os dois competiram no Anima Mundi de 1999. Com estes filmes consegui entrar na Trattoria di Frame e lá pude me especializar, animando uma centena de trabalhos entre comerciais, curtas, clipes e vinhetas. Animei bonecos, massinha, areia, pessoas, comida, roupas, brinquedos, papéis, tinta e até película de cinema. E isso fez toda a diferença – a chance de animar tudo isso ‘valendo’. Claro que ajudou muito a prática que eu tinha com maquetes, modelagem, marcenaria, origamis e pega-varetas. E eu já era fascinado pelos filmes quadro-a-quadro, como “O Estranho Mundo de Jack”, “Dimensões do Diálogo”, “King Kong” (1933) e “Castelo de Areia”.

– Você tem experiências marcantes tanto em animações para publicidade quanto em filmes de conteúdo próprio. Qual mercado, em sua opinião, está mais favorável para animação?

Produções de conteúdo em séries e longas estão com mercado favorável, mas especificamente para animações em 2D digital. Isto é muito limitado e só contempla (e sobrecarrega) produtoras especializadas nesta técnica. Séries e longas em Computação Gráfica, Stop Motion ou 2D tradicional, quando existem, são exceções heroicas, infelizmente. Então é ilusório considerar que o mercado de Animação está ótimo no país, pois os recursos disponíveis – que são muitos – não estão distribuídos entre as técnicas que praticamos aqui. Só está ótimo pra um estilo – os outros seguem com dificuldades de viabilização. Então a maioria dos profissionais de Animação no Brasil está fora da festa – e os que estão dentro são disputados a tapa. Já grande parte dos trabalhos de Animação pra publicidade foi para a internet, onde os orçamentos caíram pela metade e o tempo de duração dos filmes dobrou. Isso deu fim à era dos comerciais grandiosos, que testavam novas técnicas. E é difícil testar técnicas de animação com recursos e tempo próprios, pois o animador precisa sobreviver de outra maneira. O ideal seria fazer isso no curta-metragem, que é o sashimi do Cinema de Animação. Mas o curta de Animação segue burramente deixado de lado por quem distribui os recursos via editais. Então aquele que está fora da festa também tem dificuldade pra fazer seu filme autoral – e isto é muito triste porque temos talentos fabulosos que tinham que estar fazendo curtas incríveis, e não só se mantendo com oficinas, storyboards e freelas. Então nosso mercado de Animação tende a ser uma monocultura controlada por uma oligarquia, por assim dizer. Isso tem que mudar logo.

 

– Pode contar um pouco sobre como tem usado Light Painting nas suas produções? Pra quem ou que tipo de produção você recomenda essa técnica?

A principal característica estética do Light Painting é o alto contraste, até porque ela só existe por causa disso. São desenhos com luzes sobre um fundo escuro. Isso faz com que a técnica seja bastante gráfica e ágil. E também limitada no sentido de ser mais difícil trabalhar com cenários, profundidade de campo, closes ou planos detalhes. Então a animação com Light Painting se presta a projetos mais livres como vinhetas, curtas e clipes, ou como sequência lúdica inserida em outros filmes. Eu já usei Light Painting escrevendo o título na abertura de uma websérie, “BOTOLOVERS”, inserindo texto sobre imagens em uma videocrônica, “ABU DHABI”, vinheta pro documentário “LUZ, ANIMA, AÇÃO!” e sequências pro curta do Marcos Magalhães, “DOUTOR, MEU FILHO É ANIMADOR” e para o meu novo, “PONTOS DE VISTA”. A animação de Light Painting sempre surpreende.

 

– O que você está produzindo agora?

Neste momento estou na pré-produção de um curta encomendado, um interprograma pra Pernambuco, que será animado com origamis. Também fechei um comercial pro México, com animação de objetos, de um produto que ainda é segredo. E desde Agosto estou animando bonecos na Coala Filmes, pra série “ANGELI THE KILLER”, que passará no Canal Brasil.

 

– Alguma dica pra quem está começando a aprender animação agora?

Tenho muitas dicas. Aqui vão 3:
– A tentação de animar em movimento constante é grande quando estamos começando, mas isso só deve ser feito em casos muito especiais, como máquinas, gravidade zero, fundo do mar ou tai-chi-chuan.
– Se você quer ser animador de Stop Motion ou experimental, aprenda TUDO o que for habilidade manual, desde marcenaria a inseminação artificial de pandas. Um dia você vai precisar.
– Mais importante que decorar o Survival Kit ou aprender a formatar uma bíblia é assistir ao máximo de curtas de animação de todos os tempos. Se possível, na telon
a do cinema. Os melhores, mais de uma vez. Jamais troque uma sessão de filmes por uma mesa sobre leis de incentivo.

 

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