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A Vivian Altman é uma animadora brasileira que mora na frança há 27 anos. Nas últimas semanas a sua série, “Boa noite, Martha”, estreou na TV Cultura. A série trata do universo feminino por meio da personagem Martha e sua rotina com a família. O que nos chamou a atenção é o fato de ser uma série adulta, feita com massinha. A gente conversou com a Vivian para conhecer um pouco mais sobre seu trabalho e inspirações. Veja na entrevista abaixo. Não se esqueça de deixar nos comentários sugestões de animadores que você gostaria de ver aqui no nosso blog.

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– Conte pra gente como começou a sua carreira como animadora?
Eu me apaixonei pelo cinema de animação quando assisti a uma mostra de animação polonesa no final dos anos 70. Adorei descobrir aquelas animações para adultos, um universo pesado e deprimente. Mas naquele momento eu decidi fazer animação. Fui cursar a ECA na USP, mas só dois semestres eram dedicados à animação. Em compensação foi na ECA que tive acesso a grandes oportunidades. Conheci a Regina Rheda, para quem fiz a abertura em animação 2D de um curta metragem. Depois participei do curta em stop motion “Bammersach” de Ana Mara Abreu et Michael Ruman (1984). Também fiz o cenário e os bonecas de “Frankenstein Punk”, do Cao Hamburger e da Eliana Fonseca. Eu animei muito pouco nesse filme, mas fui aprendendo muito com o Cao. No filme seguinte dele, o “Garota das telas”, criei os bonecos e comecei a ajudar  com as animações. Então fui aprendendo na prática.  

– Desde sempre seu foco foi em criar animações para adultos?
Eu só fui realizar meu primeiro filme completamente autoral em 2003. Até então animei, fiz bonecos e fiz filmes institucionais. E para meu primeiro filme autoral, meu tema era claramente para adultos. Na verdade, eu tinha vontade de falar da minha vida, das minhas questões. Se chama “La minute féminine”.

– Você encontrou muitas barreiras no mercado ao criar animações para adultos com massinha?
Desde que comecei a realizar, achei que o ideal seria fazer séries para a televisão. Fui bater na porta de muitos produtores e quase em unanimidade eles me respondiam que a televisão não mostra animação para adultos. Que eu voltasse com ideias para crianças. Não tenho nada contra, mas toda vez que tenho ideias são ideias para adultos. 

De fato, na França, onde vivo desde 1988, muitos poucos canais exibem séries de animação para público adulto. Em 1989 eu participei de uma série que se chama “Kama Sutra” e era para o Canal+, na época um canal bastante ousado. Mas em geral, a mentalidade é bastante conformista, as mudanças demoram para se operar. Finalmente consegui produzir aqui no Brasil.

– Pra você, qual a importância de usar a sua arte para falar com o público feminino?
Eu gosto de observar as pessoas, suas reações, suas contradições. Eu tenho a convicção que a auto-observação feita com muita honestidade ajuda na transformação pessoal e eventualmente da sociedade, porque não?! Em relação à questão feminina, eu gosto de pensar nas mulheres caminhando, conquistando seus direitos, melhorando sua condição que em muitos países do mundo é tristemente degradante.
Nos meus filmes autorais eu retrato a condição de uma mulher ocidental, de classe média, simplesmente porque trabalho muito no registro autobiográfico. Mas fiz três filmes com uma amiga documentarista moçambicana, misturas de documentário e animação. Nesses filmes, falávamos de outra realidade.

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– Quais são as suas principais referências na hora de começar um novo trabalho?

Como disse, eu olho muito pro meu umbigo, para a minha vida, meus conflitos e entendimentos e para as histórias que acontecem em torno de mim. E tenho a impressão de que as pessoas se reconhecem nos meus filmes, talvez porque são observações pertinentes. Falo muito de vida de casal e os homens também se enxergam nas histórias.

– Você usa referências da cultura francesa e brasileira no seu trabalho? Como faz esse mix?
Quando conheci o trabalho da desenhista francesa de histórias em quadrinhos, Claire Bretécher, eu fiquei doida… Tinha achado a minha referência. Ela tem um humor mais ácido que o meu, talvez mais feminista, mais politizado. O trabalho dela dos anos 70, 80 é genial, engraçadíssimo. Ao fazer essa série, “Boa noite, Martha”, me perguntei se o humor funcionaria no Brasil. Se não era mais europeu. O humor é sempre um meio pra perceber traços de uma cultura e nisso eu me sinto brasileira, francesa e tenho também algo profundamente judaico no jeito de enxergar o mundo. Eu não resolvo que vou misturar elementos das duas culturas. Eu acredito que sou esse mix e o que for criado é fruto dessa mistura.

– O que você está produzindo agora?
Propus pra uma amiga animar uma canção que ela criou e gravou. É um videoclipe que vai levar tempo pra  fazer porque só trabalho nele quando tenho tempo e vontade. Eu escrevi um curta sobre a história de um casal (de novo). Nesse curta eu gostaria de mudar o meu material usual que é a massinha de modelar. E é um filme que duraria uns 8 a 10 minutos. Fora isso, fui convidada por amigos a participar de dois projetos: uma série pré-escolar e um longa-metragem.

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– Como o Anima Mundi se cruzou com a sua carreira?
Eu assisti o crescimento desse festival de longe. Sempre que vinha para o Brasil na época do festival, ia assistir filmes, observar os ateliês abertos. Participei pela primeira vez no ano que o Festival completava 15 anos, quando mandei um filme. Participei uma segunda vez com o filme “Mãe dos netos” que correalizei em Moçambique com Isabel Noronha e, em 2014, mostrei episódios do “Boa noite, Martha”.
Além disso, foi numa edição do Anima Forum que conheci a Marta Machado, que estava coordenando uma mesa redonda. Na época ela trabalhava na Otto desenhos animados. Achei ela bem legal e fui mostrar meu trabalho. Ela gostou e fomos desenvolvendo o projeto do “Boa noite, Martha”.

– E, pra finalizar: quais dicas você dá para quem está no começo da carreira ou pretende começar?
Acho bom assistir muito filme (não necessariamente de animação), ler, ver exposições. Acho bom fazer filminhos como quem faria croquis. Experimentar coisas sem ter a pretensão que se tornem obras de arte. E escutar do que vai dentro de si. Descobrir uma linguagem que seja sua cara. Eu não fiz uma escola de animação, e se por um lado tenho muitas lacunas técnicas, vejo que faço um trabalho que tem meu jeito, e isso para mim é o mais importante.