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O filme Fantasia, lançado em 1940, você com certeza já assistiu. Mas existe um outro clássico, pelo menos para os animaníacos, chamado Allegro Non Troppo (Música e Fantasia, na versão em português), que tem muito em comum com a animação produzida por Walt Disney. Na verdade, tem e não tem. Calma, vamos explicar.

Ambos os filmes possuem o mesmo argumento. Basicamente, é a história da evolução no planeta. O surgimento do primeiro ser vivo em terra firme, na água e no ar. Entretanto, 26 anos separam as duas obras.

Cartaz de Allegro non Troppo / Fonte: direcaodeartedesign.wordpress.com

Como próprio cartaz define o filme: Um cruzamento entre Fantasia e O Submarino Amarelo com um toque de Fellini

Allegro Non Troppo foi lançado em 1976, logo pode-se considerá-lo um comentário irônico do seu anterior. Em Fantasia, a evolução na Terra têm uma abordagem fantástica, que inclui seres míticos como unicórnios e centauros. Até o Mickey ganha participação, e torna a sequência três, na qual aparece, a mais famosa. Um ponto de vista inofensivo se comparado ao do filme de Brunno Bozzetto. Na animação do italiano, a vida na esfera azul se origina a partir de uma garrafa de Coca-Cola. E a maçã, o símbolo do pecado, quando provada leva a um mundo de materialismo, consumismo e propagandas que exploram a luxúria. Familiar?

O homem na visão do animador italiano é o estraga-prazeres do universo. No início da vida no planeta, quando todos os animais migram unidos, o macaco – que em breve irá “evoluir” para ser humano – já apresenta uma essência destruidora: queima, bate e provoca os outros seres.

Detalhe do cartaz de Allegro Non Troppo / Fonte: filmonpaper.com

Detalhe do cartaz: os animais durante a grande migração

Mas não é porque o mundo de Disney foi criado por Mickey que ele pode ser caracterizado como inocente. O filme pode não ter um ponto de vista crítico, mas tem momentos sombrios e dramáticos. A última parte, que tem Uma Noite no Monte Calvo de Modest Mussorgsky e Ave Maria de Shubert como trilha sonora, mostra o terror quando criaturas diabólicas tomam a Terra. A figura de Deus é representada por diferentes personagens, desde do maestro até a dança, passando por Baco e a própria natureza.

Algo em comum aos dois filmes é a música clássica. A abertura de ambos tem a presença da orquestra e do maestro, que é quem dá início ao espetáculo da vida. Em Fantasia são utilizadas oito peças de compositores variados como: Beethoven, Tchaikovsky, Bach, Dukas, Stravinsky, entre outros. Este último também está presente no filme italiano, assim como Ravel, Debussy e Vivaldi. O próprio título da animação de Bozzetto faz um trocadilho com o andamento da música erudita, allegro ma non troppo, que no português seria “rápido, mas não muito”. É também uma ironia com a ideia do progresso como salvação da civilização. O título em português não faz jus ao filme: Música e Fantasia passa a ilusão de apenas uma imitação do clássico de Disney, quando na verdade o longa vai muito além.

Philadelphia Symphony Orchestra

A Philadelphia Symphony Orchestra que se apresenta no filme Fantasia

Hoje Fantasia é um clássico, mas quando foi lançado não teve sucesso com a crítica nem com o público. Apenas nos ano 60 foi redescoberto, o que não é nenhuma surpresa considerando o abstracionismo e surrealismo presente em muitas imagens. Já Allegro Non Troppo é ainda desconhecido pelo grande público, apesar de ser considerado uma animação de excelente técnica e roteiro.

Mickey Mouse em Fantasia

Mickey Mouse em Fantasia: tentativa de tornar o filme mais atrativo para o público. Não deu muito certo na época.