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O som começou a fazer parte das sessões de cinema em 1927, com o O Cantor de Jazz. Mas como o filme de Alan Crosland é americano, todos os diálogos são, claro, em inglês. O jeito que alguns estúdios – como a MGM e a Paramount – encontraram para ter essas obras em outra língua foi refilmá-los, em Paris e em francês. Essa alternativa era muito cara e foi utilizada por pouco tempo. Já em 1930 foi lançado o filme The Flyer, de Edwin Hopkins e Jacob Karol, o primeiro a utilizar vozes gravadas em estúdio. No Brasil, entretanto, a dublagem só chegou no final da década, com A Branca de Neve e os Sete Anões.

 

Poster original de A Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937

Poster original de A Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937

Um ano após o lançamento do clássico desenho da Disney – o primeiro longa-metragem de animação da história – as gravações de vozes começaram nos estúdios da Delart em 1938. A Walt Disney teve intervenção direta nessas gravações, com direito a técnicos americanos acompanhando o processo e tudo mais. Carlos de La Riva, fundador da Delart, foi quem dirigiu a dublagem.

Naquela época essas gravações demoravam de três a quatro vezes mais do que hoje. Isso ocorria porque todos os atores dublavam ao mesmo tempo, juntos no estúdio e sem ouvir o som original. Hoje cada ator grava a sua parte separadamente, com fones de ouvido e a opção de escutar o áudio na língua de original.

 

Dublado ou legendado?

A Delart ainda está no mercado, e após o fechamento da Herbert Richards, é hoje a maior empresa de dublagem da América Latina. Após A Branca de Neve, outros clássicos da Disney foram gravados no estúdio como Pinóquio, Dumbo e Bambi. O próprio Walt Disney era um grande da dublagem e fazia questão de manter um alto padrão de qualidade nas versões de seus filmes ao redor do mundo. Ele acreditava que as legendas desviavam a atenção das animações. Outro ponto negativo da legendagem é que, em países como o Brasil, onde 9,7% das pessoas são analfabetas e que 1 em cada 5 são analfabetas funcionais (Fonte: IBGE), elas excluem boa parte do público.

O processo de dublagem tem mesmo seus contras: é mais caro e leva o dobro do tempo para ser completado. Mas o mais interessante da é que ela dá espaço a grandes artistas brasileiros, como Mário Monjardim, Guilherme Briggs, e o inesquecível Seu Peru da Escolinha do Professor Raimundo, Orlando Drummond. Além de emprestarem as vozes a personagens como Salsicha, Buzz Lightyear e Popeye respectivamente, eles trouxeram sotaques, expressões e entonações tipicamente brasileiras, acrescentando ainda mais ao filme.

Além de Popeye, Orlando também dublou Alf, e Scooby-Doo


Voice talent x Dublagem

É comum a confusão entre dublagem e voice talent. A dublagem é a gravação das vozes após o filme estar pronto. Ou seja, o desempenho desses atores não influencia na produção do filme. Já quando um ator é convidado para ser voice talent de uma animação quer dizer que o filme se desenvolverá juntamente com a sua interpretação. Nesse caso é possível inclusive filmar o ator em ação no estúdio e aproveitar gestos e movimentos feitos por ele. O filme Rio de Carlos Saldanha é um exemplo. Rodrigo Santoro foi convidado para ser voice talent do personagem Tulio, que já havia sido esboçado. Suas sessões de gravações eram filmadas e depois assistidas pelos animadores. Já no próximo dia de trabalho, esses artistas incorporavam certas características da interpretação de Rodrigo ao personagem. Assim o filme era construído em conjunto, ator e animador se influenciando mutuamente.

Rodrigo Santoro deu voz a Túlio nas versões em inglês e português do filme

Rodrigo Santoro deu voz a Túlio nas versões em inglês e português do filme